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Artigo: O problema da educação dos brasileiros no Japão

Por Cesar Callegari


Não  bastassem  os  graves problemas  que  afligem as  escolas de educação básica em todo o Brasil, do outro lado do mundo milhares de crianças e jovens brasileiros também vivem graves dificuldades educacionais.

Atualmente, cerca de 320 mil brasileiros residem no Japão. Entre eles, 15 mil meninos e meninas freqüentam instituições públicas japonesas, 10 mil estão em escolas particulares para brasileiros, todas elas enfrentando problemas, seja de acesso às unidades de ensino, seja de permanência nas escolas. Além deles, pelo menos 15 mil crianças e jovens não freqüentam escola alguma. O quadro é cada vez mais alarmante a ponto de mobilizar, lá e aqui, manifestações de entidades representativas das famílias afetadas, e de exigir uma nova postura das autoridades governamentais brasileiras e japonesas.

A partir de 1990, quando o governo japonês alterou suas leis de imigração facilitando o acesso de estrangeiros nipo-descendentes ao seu mercado de trabalho, uma enorme quantidade de brasileiros foi atraída pela perspectiva de emprego e renda, bem como pela possibilidade de formar rapidamente uma poupança em moeda forte. Naquela época muitos viajavam sozinhos ganhar a vida. Quatro ou cinco anos de trabalho duro e um modo de vida espartano bastavam para juntar US$ 100 mil ou mais, dinheiro suficiente para um recomeço em melhores condições quando da volta ao Brasil. De lá para cá a situação mudou bastante. Hoje, para acumular os mesmos US$ 100 mil (que por conta do cambio atual valem metade do que valiam) são necessários 10 anos de trabalho árduo e muita privação e muita economia. Esforço e tempo mais longos têm como consequência que muitos brasileiros passaram a levar consigo suas famílias para o Japão ou constituí-las lá mesmo. Esta é a principal explicação da presença, cada vez maior, de crianças e jovens, assim como da eclosão de todos os problemas decorrentes de condições inadequadas de seu desenvolvimento e socialização. Isso é uma novidade, um fato social novo a desafiar cientistas sociais, educadores e políticos mais atentos e comprometidos com a situação dos brasileiros, onde quer que eles estejam.

No Japão brasileiros, em geral, trabalham em fábricas localizadas principalmente nas províncias da região litorânea central, a mais industrializada do país. Com jornadas estafantes que começam muito cedo e terminam muito tarde, muitas vezes consumindo os finais de semana, eles realizam as tarefas mais pesadas e insalubres, executando funções que são rejeitadas pelos próprios japoneses. Como conseqüência, são cada vez mais comuns os relatos de dissolução de famílias e problemas de crianças que, sem conhecer o idioma japonês, tampouco conseguem se comunicar bem em português porque quase não têm contato com os próprios pais.

A criminalidade juvenil de brasileiros é a segunda maior entre os estrangeiros no Japão, superada apenas pela praticada por jovens de origem chinesa. A chamada delinqüência juvenil é conseqüência direta de dificuldades de adaptação e ausência de perspectivas para muitos adolescentes. A situação é tal que, pelo segundo ano consecutivo, o Governo brasileiro se viu na contingência de promover exames supletivos em níveis de ensino fundamental e médio para jovens internos em penitenciárias e reformatórios de diferentes regiões do país. O aumento da criminalidade envolvendo brasileiros fez com que autoridades governamentais japonesas também passassem a dedicar mais atenção aos problemas de educação. A atitude é positiva, mas é preciso avançar mais rápido e agir com mais energia.

Pelas leis japonesas, o governo não tem obrigações educacionais para com os estrangeiros. Contudo, os em idade escolar são aceitos em estabelecimentos de educação fundamental públicos. A adaptação das crianças, entretanto, quase sempre é um problema, seja em função das dificuldades com a língua, seja como conseqüência de diferenças culturais. Raras são as instituições que dispõem de alguma estrutura bilíngüe voltada aos esforços de orientação e adaptação dos estudantes brasileiros. Além disso, as escolas sabem que a perspectiva de permanência desses alunos nas suas dependências é por tempo reduzido, seja pelos planos familiares de retorno a Brasil, seja pela freqüente necessidade de deslocamento das famílias em busca de novas colocações num mercado de trabalho extremamente volátil para ocupações não-qualificadas. E mais: nas escolas públicas japonesas a progressão é continuada, isto é, as crianças vão progredindo conforme a sua idade. Não há repetência e se assegura o efetivo aprendizado. O fato é que, para crianças brasileiras que chegam ao Japão - e quanto mais idade elas têm, mais difícil é - freqüentar uma escola pública é uma espécie de não-opção. Ou a família reúne condições de matriculá-la numa escola particular para brasileiros, que é relativamente cara, ou a criança, na prática, fica sem estudar e sem aprender.

Identificar a situação e a exata localização dessas crianças e jovens brasileiros sem escola ou com dificuldades em escolas japonesas é tarefa urgente e que cabe aos governos. Assim como são urgentes as providencias no sentido de ampará-las no seu processo de integração, proporcionando profissionais, materiais e outras condições adequadas às suas necessidades.

Existem cerca de 90 escolas particulares atendendo aos filhos das famílias brasileiras no Japão. Metade delas tem seus procedimentos acreditados pelo MEC que tem avançado, é verdade, no sentido de monitorar a estrutura e a qualidade do ensino que elas oferecem. Além de ser um dever, esse acompanhamento é necessário porque a imensa maioria dos alunos voltará para o Brasil onde deverá prosseguir nos seus estudos. Tais escolas, contudo, não podem se constituir em ilhas de isolamento cultural, seja em relação a cultura brasileira, seja com relação á língua, cultura e civilização japonesas. Exigências maiores haverão de ser feitas para que elas se capacitem como pontos de integração, e que sejam responsabilizadas a promover o intercambio entre as duas formações sociais.

A educação dos brasileiros no Japão, claro, nunca deixará de ser responsabilidade do Brasil. Mas é preciso insistir que o problema também é de responsabilidade das autoridades japonesas. Brasileiros vão ao Japão porque lá são necessários. Há uma política deliberada que estimula sua imigração. Vão trabalhar e produzir riquezas, para o Japão e suas empresas. Obviamente, o incentivo à sua presença naquele país não é fruto de uma tardia reverência pelos descendentes daqueles homens e mulheres que há um século deixaram o Japão e se estabeleceram no Brasil. Sendo funcionais ao capitalismo industrial globalizado, trabalhadores brasileiros, entretanto, não podem ser considerados  apenas mão-de-obra. Assim, o país que os recebe deve assumir e lidar com as demandas sociais decorrentes desse processo.

Cem anos após a chegada dos primeiros imigrantes japoneses, quando se comemora sua importante contribuição na formação econômica e cultural do Brasil, é necessário lembrar que processos migratórios geram mais que oportunidades: criam responsabilidades inalienáveis de natureza solidária e humanitária. Antes como hoje, imigrantes não podem ser reduzidos à condição de força de trabalho: são cidadãos do mundo, portadores de direitos os quais cumpre respeitar e defender. Entre eles, o direito à Educação.


* Texto original publicado na edição nº 14 (2008) da Revista “Sociologia Ciência & Vida”



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